sexta-feira, 26 de novembro de 2010

“Estou de frente para uma parede cinza e áspera. Lá fora o vento sopra forte. Baforadas quentes, típicas de um tórrido veraneio desértico, invadem o local em que me encontro parecendo querer dispersar o silêncio e a quietude que precedem à morte.

Minha fronte está coberta por uma camisa branca, ainda assim consigo ver todos os demais perfilados ao meu lado. Neste momento, mãos procuram por mãos. Muitos não conseguem se manterem de pé e sucumbem ao chão. Ao meu lado, duas jovens de traços indígenas balbuciam uma prece, por certo um pedido desesperado por misericórdia e intercessão de suas santas protetoras.

Talvez sejamos uns sessenta, a grande maioria homens. Homens feitos, sonhadores que nunca esqueceram os contos infantis. Todos, até então, vívidos e resignados em alcançar a redenção libertadora provocada pela riqueza e consequente felicidade. A maioria partiu deixando promessas em corações intranquilos. Promessas que desvanecerão com o tempo e com a impossibilidade natural de não realização.

Pareço ser o mais sereno dentre todos. Ainda que meus pensamentos sejam pontuados pelo barulho de tiros cadenciados, consigo pensar e manter uma linha de reflexão um tanto quanto coerente. Mesmo diante de uma situação adversa, tão extrema, não consigo confessar que me arrependi.

Lembro-me, vagamente, de minha infância e das histórias que minha mãe me contava quando pequeno. ‘Ao fim de uma tempestade de verão, o sol sempre aparece acompanhado pelo belo arco-íris. No fim dele, existe um grande baú repleto de moedas de ouro de grande valor. Você tem de procurá-lo, querido!’. Assim ela me encorajava a não me conformar com aquela vida de privações. Ainda hoje não sei dizer se ela fazia alguma ideia dos simbolismos implicados neste conto ou se acreditava, de fato, na materialidade do tesouro.

Naquela época chegavam às cercanias do vilarejo onde morávamos as notícias de feitos quase heróicos dos primeiros que se aventuravam nos desertos mexicanos rumo à América. Depois de muitos anos longe, alguns voltavam donos de grandes posses, o que sempre me intrigou.
Cresci com o arco-íris sobre minha cabeça e o baú, mesmo que arrombado pelos primeiros felizardos, como um sonho plena e possivelmente tocável. Decidi partir há duas semanas, avistando um horizonte totalmente aberto às possibilidades de um futu”...

Sem que ele percebesse, chegara a hora.
Dentro de dois dias, o massacre de 72 imigrantes ilegais sequestrados por narcotraficantes mexicanos será notícia em todo mundo. Aos poucos, cada um dos corpos terão suas identidades recobradas e os parentes poderão chorar seus mortos.
Fora do galpão, local da chacina, o vento havia cessado. Indeciso, o sol se escondia entre as nuvens carregadas e tornava a se fazer visível. Uma chuva começava a cair, regando o chão rochoso e infértil enquanto, no céu, o arco-íris surgia majestoso e indicava o caminho a tantos outros.

Ao mestre, com carinho

"Vê isto. Mal posso escrever-Te. Quisera eu ter controle sobre minhas mãos, fazer deste bilhete o mínimo legível possível. Quisera poder escrever-Te de maneira decente, organizar-me os pensamentos e poder dizer-Te o quão indigno me sinto; tentar fazer-Te saber da dor que corrói meu coração, me castiga e sufoca.

Penso não ser possível nem agora, nem nunca.

Ó, mestre, quando foi que me deixei corromper pela dúvida que há tempos vem cirandando meus pensamentos a ponto de fazer-me cometer tão grande erro e pecar contra os céus?

Me escolheste. Mesmo sendo reservado, mesmo sem ser dotado de intrepidez alguma para pregar Tua palavra, me escolheste. Nunca entendi Tuas decisões, pareciam-me loucas, mas Tua sabedoria sempre esfacelava minhas indagações. As provas visíveis eram mais fortes.

Segui-Te, admirei-Te, mas, com tristeza de morte, confesso, que talvez nunca tenha Te amado como deveria.

Noite passada sabias que seria eu? Fui predestinado a isto?

Ó, mestre, caminhar ao Teu lado foi enobrecedor. Honrado sentia-me por acreditares em mim, mesmo que ninguém me desse crédito. Dos doze, escolheste a mim para cuidar das finanças de tua obra, mesmo conhecendo-me melhor que eu. Mesmo sabendo...

Querias testar-me? Avaliar-me o caráter falho? Ensinar-me?

Tenho dúvidas. A consciência faz de mim um homem atordoado em confusões.

É minha somente a culpa. Como pude fazer-Te tão irreparável mal? És mais valioso que qualquer vaso de alabastro, qualquer quantia em ouro e prata, mas entreguei-Te, entreguei o filho do homem, pelo equivalente ao preço de um escravo.

Ali, diante do sinédrio, percebendo que fora eu, me ofereces a face e me chamas amigo.

Ó mestre, Teu amor me constrange.

Não consigo decifrar teu olhar e entender o significado de tuas palavras. Terias me perdoado se...

O remorso me condena e faz-me a renunciar tua compassível misericórdia e benevolência. Sinto-me imerecedor do teu reino, ainda que, diante de tudo, me quiseres pertencente a ele."

“(...) foi enforcar-se.” Mateus 27. 5

domingo, 7 de novembro de 2010

O silêncio do rio

A correnteza calma conduz o barco em direção à margem do Paraopeba. A lua cheia rouba para si os olhares das gentes ribeirinhas, mas não o meu. Observo da ponte de madeira, já interditada, o remo cumprir o seu sistemático e solitário trabalho tomado às mãos do pescador.

As águas sujas ganham uma tonalidade cromada pela incidência da luz que vem do alto. É noite, mas tudo torna-se muito claro e, por isso, passível de contemplação.

Há alguns anos, quando ainda trabalhava na rádio, recebi um casal que, há três dias, persistia firme na procura pelo irmão – um jovem de 29 anos, estudante de direito, branco, cabelos pretos, crespos e curtos; que numa tarde de segunda-feira, saíra de casa vestido de maneira informal, de bermuda, e sem ter com ele sequer um documento.

Como era de costume, muitas pessoas recorriam ao programa, a duras penas produzido por mim, para tentarem reencontrar seus entes queridos. Até aquele momento havíamos conseguido ajudar a localizar muitas pessoas, o que me enchia de certo orgulho. Os motivos dos desaparecimentos eram diversos, mas na maioria dos casos, o evasor apresentava quadro de transtorno mental. A grande maioria dos reencontros só era possível graças aos nossos muitos ouvintes atentos espalhados pela metrópole.

O caso do Daniel, cujo nome completo nem me lembro mais, era atípico. O rapaz nunca havia desaparecido, dias antes daquela segunda-feira não havia brigado com ninguém e, segundo o relato dos irmãos, era um rapaz pacífico e caseiro.

A dor dos familiares era evidente. A moça, que só observava o irmão fazer o apelo no microfone, tinha os olhos opacos e contornados por senhoras olheiras – resultado de duas vigílias seguidas e dos cuidados redobrados com a mãe já idosa e, agora, angustiada. Nas mãos trêmulas, os documentos do irmão sumido adquiriam formato cilíndrico sem que ela percebesse. Os cabelos lisos e curtos; e o biotipo esmirrado dava a ela um ar infantil de menina carente de proteção.

Lembro-me como se fosse ontem daquele olhar perdido, daquele semblante desolador. Não eram necessárias lágrimas, nem gritos.

Deixado o registro no ar eles foram embora. Nunca mais os vi. Dias depois, Rogério, irmão do Daniel, me ligou. O relógio marcava: 16h, o momento mais tenso dos meus dias de trabalho. Dentro de cinco minutos deveria estar no estúdio para o início do programa. Expliquei a minha situação, pedi desculpa pela pressa ao falar. Sem jeito ele me pediu um minuto. Eu, mesmo que não pudesse, consenti. “Eu só queria dizer que acharam meu irmão... infelizmente o acharam morto, no rio Paraopeba”, disse. O sorriso que começava a se esboçar em minha face foi desfeito com última sentença dita. Fui dominado por um constrangimento terrível e uma tristeza sem fim. Gostaria de ter dito algo além das poucas palavras de lamento que proferi. Prometi retornar mais tarde. Por mais que eu quisesse saber o que havia acontecido, naquele momento não podia me estender em perguntas.

Às 17h, de volta à redação, digito o número de contato. Insisto. Caixa postal. Coloco o aparelho no gancho e, rápida e instantaneamente, como a percepção da dor de um espinho que adentra à carne, pensei em desistir, para sempre. E assim fiz.

Ao longo de muitos anos trabalhei com as inúmeras possibilidades que me vinham à cabeça. Fiz uma pesquisa rápida, mas nada demais encontrei. A polícia, por certo, não tinha pistas. Nenhuma marca de bala, nenhum indício de agressão, nenhum hematoma.

Hoje, avistando essas águas turvas, pergunto a elas como. Não obtenho respostas. Eu não sei, talvez os irmãos nunca souberam.

Os rios têm disso... segredos inconfessáveis.