domingo, 7 de novembro de 2010

O silêncio do rio

A correnteza calma conduz o barco em direção à margem do Paraopeba. A lua cheia rouba para si os olhares das gentes ribeirinhas, mas não o meu. Observo da ponte de madeira, já interditada, o remo cumprir o seu sistemático e solitário trabalho tomado às mãos do pescador.

As águas sujas ganham uma tonalidade cromada pela incidência da luz que vem do alto. É noite, mas tudo torna-se muito claro e, por isso, passível de contemplação.

Há alguns anos, quando ainda trabalhava na rádio, recebi um casal que, há três dias, persistia firme na procura pelo irmão – um jovem de 29 anos, estudante de direito, branco, cabelos pretos, crespos e curtos; que numa tarde de segunda-feira, saíra de casa vestido de maneira informal, de bermuda, e sem ter com ele sequer um documento.

Como era de costume, muitas pessoas recorriam ao programa, a duras penas produzido por mim, para tentarem reencontrar seus entes queridos. Até aquele momento havíamos conseguido ajudar a localizar muitas pessoas, o que me enchia de certo orgulho. Os motivos dos desaparecimentos eram diversos, mas na maioria dos casos, o evasor apresentava quadro de transtorno mental. A grande maioria dos reencontros só era possível graças aos nossos muitos ouvintes atentos espalhados pela metrópole.

O caso do Daniel, cujo nome completo nem me lembro mais, era atípico. O rapaz nunca havia desaparecido, dias antes daquela segunda-feira não havia brigado com ninguém e, segundo o relato dos irmãos, era um rapaz pacífico e caseiro.

A dor dos familiares era evidente. A moça, que só observava o irmão fazer o apelo no microfone, tinha os olhos opacos e contornados por senhoras olheiras – resultado de duas vigílias seguidas e dos cuidados redobrados com a mãe já idosa e, agora, angustiada. Nas mãos trêmulas, os documentos do irmão sumido adquiriam formato cilíndrico sem que ela percebesse. Os cabelos lisos e curtos; e o biotipo esmirrado dava a ela um ar infantil de menina carente de proteção.

Lembro-me como se fosse ontem daquele olhar perdido, daquele semblante desolador. Não eram necessárias lágrimas, nem gritos.

Deixado o registro no ar eles foram embora. Nunca mais os vi. Dias depois, Rogério, irmão do Daniel, me ligou. O relógio marcava: 16h, o momento mais tenso dos meus dias de trabalho. Dentro de cinco minutos deveria estar no estúdio para o início do programa. Expliquei a minha situação, pedi desculpa pela pressa ao falar. Sem jeito ele me pediu um minuto. Eu, mesmo que não pudesse, consenti. “Eu só queria dizer que acharam meu irmão... infelizmente o acharam morto, no rio Paraopeba”, disse. O sorriso que começava a se esboçar em minha face foi desfeito com última sentença dita. Fui dominado por um constrangimento terrível e uma tristeza sem fim. Gostaria de ter dito algo além das poucas palavras de lamento que proferi. Prometi retornar mais tarde. Por mais que eu quisesse saber o que havia acontecido, naquele momento não podia me estender em perguntas.

Às 17h, de volta à redação, digito o número de contato. Insisto. Caixa postal. Coloco o aparelho no gancho e, rápida e instantaneamente, como a percepção da dor de um espinho que adentra à carne, pensei em desistir, para sempre. E assim fiz.

Ao longo de muitos anos trabalhei com as inúmeras possibilidades que me vinham à cabeça. Fiz uma pesquisa rápida, mas nada demais encontrei. A polícia, por certo, não tinha pistas. Nenhuma marca de bala, nenhum indício de agressão, nenhum hematoma.

Hoje, avistando essas águas turvas, pergunto a elas como. Não obtenho respostas. Eu não sei, talvez os irmãos nunca souberam.

Os rios têm disso... segredos inconfessáveis.

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