A correnteza calma conduz o barco em direção à margem do Paraopeba. A lua cheia rouba para si os olhares das gentes ribeirinhas, mas não o meu. Observo da ponte de madeira, já interditada, o remo cumprir o seu sistemático e solitário trabalho tomado às mãos do pescador.
As águas sujas ganham uma tonalidade cromada pela incidência da luz que vem do alto. É noite, mas tudo torna-se muito claro e, por isso, passível de contemplação.
Há alguns anos, quando ainda trabalhava na rádio, recebi um casal que, há três dias, persistia firme na procura pelo irmão – um jovem de 29 anos, estudante de direito, branco, cabelos pretos, crespos e curtos; que numa tarde de segunda-feira, saíra de casa vestido de maneira informal, de bermuda, e sem ter com ele sequer um documento.
Como era de costume, muitas pessoas recorriam ao programa, a duras penas produzido por mim, para tentarem reencontrar seus entes queridos. Até aquele momento havíamos conseguido ajudar a localizar muitas pessoas, o que me enchia de certo orgulho. Os motivos dos desaparecimentos eram diversos, mas na maioria dos casos, o evasor apresentava quadro de transtorno mental. A grande maioria dos reencontros só era possível graças aos nossos muitos ouvintes atentos espalhados pela metrópole.
O caso do Daniel, cujo nome completo nem me lembro mais, era atípico. O rapaz nunca havia desaparecido, dias antes daquela segunda-feira não havia brigado com ninguém e, segundo o relato dos irmãos, era um rapaz pacífico e caseiro.
A dor dos familiares era evidente. A moça, que só observava o irmão fazer o apelo no microfone, tinha os olhos opacos e contornados por senhoras olheiras – resultado de duas vigílias seguidas e dos cuidados redobrados com a mãe já idosa e, agora, angustiada. Nas mãos trêmulas, os documentos do irmão sumido adquiriam formato cilíndrico sem que ela percebesse. Os cabelos lisos e curtos; e o biotipo esmirrado dava a ela um ar infantil de menina carente de proteção.
Lembro-me como se fosse ontem daquele olhar perdido, daquele semblante desolador. Não eram necessárias lágrimas, nem gritos.
Deixado o registro no ar eles foram embora. Nunca mais os vi. Dias depois, Rogério, irmão do Daniel, me ligou. O relógio marcava: 16h, o momento mais tenso dos meus dias de trabalho. Dentro de cinco minutos deveria estar no estúdio para o início do programa. Expliquei a minha situação, pedi desculpa pela pressa ao falar. Sem jeito ele me pediu um minuto. Eu, mesmo que não pudesse, consenti. “Eu só queria dizer que acharam meu irmão... infelizmente o acharam morto, no rio Paraopeba”, disse. O sorriso que começava a se esboçar em minha face foi desfeito com última sentença dita. Fui dominado por um constrangimento terrível e uma tristeza sem fim. Gostaria de ter dito algo além das poucas palavras de lamento que proferi. Prometi retornar mais tarde. Por mais que eu quisesse saber o que havia acontecido, naquele momento não podia me estender em perguntas.
Às 17h, de volta à redação, digito o número de contato. Insisto. Caixa postal. Coloco o aparelho no gancho e, rápida e instantaneamente, como a percepção da dor de um espinho que adentra à carne, pensei em desistir, para sempre. E assim fiz.
Ao longo de muitos anos trabalhei com as inúmeras possibilidades que me vinham à cabeça. Fiz uma pesquisa rápida, mas nada demais encontrei. A polícia, por certo, não tinha pistas. Nenhuma marca de bala, nenhum indício de agressão, nenhum hematoma.
Hoje, avistando essas águas turvas, pergunto a elas como. Não obtenho respostas. Eu não sei, talvez os irmãos nunca souberam.
Os rios têm disso... segredos inconfessáveis.
As águas sujas ganham uma tonalidade cromada pela incidência da luz que vem do alto. É noite, mas tudo torna-se muito claro e, por isso, passível de contemplação.
Há alguns anos, quando ainda trabalhava na rádio, recebi um casal que, há três dias, persistia firme na procura pelo irmão – um jovem de 29 anos, estudante de direito, branco, cabelos pretos, crespos e curtos; que numa tarde de segunda-feira, saíra de casa vestido de maneira informal, de bermuda, e sem ter com ele sequer um documento.
Como era de costume, muitas pessoas recorriam ao programa, a duras penas produzido por mim, para tentarem reencontrar seus entes queridos. Até aquele momento havíamos conseguido ajudar a localizar muitas pessoas, o que me enchia de certo orgulho. Os motivos dos desaparecimentos eram diversos, mas na maioria dos casos, o evasor apresentava quadro de transtorno mental. A grande maioria dos reencontros só era possível graças aos nossos muitos ouvintes atentos espalhados pela metrópole.
O caso do Daniel, cujo nome completo nem me lembro mais, era atípico. O rapaz nunca havia desaparecido, dias antes daquela segunda-feira não havia brigado com ninguém e, segundo o relato dos irmãos, era um rapaz pacífico e caseiro.
A dor dos familiares era evidente. A moça, que só observava o irmão fazer o apelo no microfone, tinha os olhos opacos e contornados por senhoras olheiras – resultado de duas vigílias seguidas e dos cuidados redobrados com a mãe já idosa e, agora, angustiada. Nas mãos trêmulas, os documentos do irmão sumido adquiriam formato cilíndrico sem que ela percebesse. Os cabelos lisos e curtos; e o biotipo esmirrado dava a ela um ar infantil de menina carente de proteção.
Lembro-me como se fosse ontem daquele olhar perdido, daquele semblante desolador. Não eram necessárias lágrimas, nem gritos.
Deixado o registro no ar eles foram embora. Nunca mais os vi. Dias depois, Rogério, irmão do Daniel, me ligou. O relógio marcava: 16h, o momento mais tenso dos meus dias de trabalho. Dentro de cinco minutos deveria estar no estúdio para o início do programa. Expliquei a minha situação, pedi desculpa pela pressa ao falar. Sem jeito ele me pediu um minuto. Eu, mesmo que não pudesse, consenti. “Eu só queria dizer que acharam meu irmão... infelizmente o acharam morto, no rio Paraopeba”, disse. O sorriso que começava a se esboçar em minha face foi desfeito com última sentença dita. Fui dominado por um constrangimento terrível e uma tristeza sem fim. Gostaria de ter dito algo além das poucas palavras de lamento que proferi. Prometi retornar mais tarde. Por mais que eu quisesse saber o que havia acontecido, naquele momento não podia me estender em perguntas.
Às 17h, de volta à redação, digito o número de contato. Insisto. Caixa postal. Coloco o aparelho no gancho e, rápida e instantaneamente, como a percepção da dor de um espinho que adentra à carne, pensei em desistir, para sempre. E assim fiz.
Ao longo de muitos anos trabalhei com as inúmeras possibilidades que me vinham à cabeça. Fiz uma pesquisa rápida, mas nada demais encontrei. A polícia, por certo, não tinha pistas. Nenhuma marca de bala, nenhum indício de agressão, nenhum hematoma.
Hoje, avistando essas águas turvas, pergunto a elas como. Não obtenho respostas. Eu não sei, talvez os irmãos nunca souberam.
Os rios têm disso... segredos inconfessáveis.
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